Por que Raquel e Elmano ganharam?

Por que Raquel e Elmano ganharam?

As pesquisas quantitativas de intenção de voto, quando realizadas muito tempo antes da eleição, dizem pouco sobre o resultado final, mas criam euforia e ansiedade entre os competidores. Todas as pesquisas qualitativas que realizei mostravam, mesmo quando as quantitativas sugeriam cenários diferentes, que as eleições do Ceará e de Pernambuco seriam marcadas pelo sentimento de continuidade, e não de mudança. João Campos e Ciro Gomes ficaram seduzidos pelos números e acreditaram na vitória.

Em Pernambuco, desde fevereiro de 2025, aparecia um sentimento recorrente: Raquel Lyra estava trabalhando e precisava de mais quatro anos para fazer mais. No Ceará, a insegurança pública pesava negativamente, mas os eleitores reconheciam que Elmano de Freitas dava continuidade ao ciclo virtuoso iniciado por Camilo Santana. Portanto, apesar de pesquisas quantitativas terem apresentado, em determinados momentos, números desfavoráveis a Raquel e Elmano, os sentimentos captados qualitativamente indicavam que, no Ceará e em Pernambuco, a continuidade poderia prevalecer. E assim aconteceu.

O que as reeleições de Elmano de Freitas e Raquel Lyra revelam? Sentimentos importam. E números, especialmente os de intenção de voto, têm poder preditivo limitado quando ainda estamos distantes da eleição. João Campos acreditou muito cedo na possibilidade de vitória. Havia razões para isso: foi eleito e reeleito prefeito do Recife, construiu uma gestão bem avaliada e conquistou enorme audiência nas redes sociais. Ciro Gomes, por sua vez, apostou que a insegurança pública — um dos grandes desafios do Ceará — seria suficiente para levá-lo à vitória.

Mas ambos subestimaram uma dimensão decisiva: a subjetividade do eleitor, que as pesquisas quantitativas de intenção de voto nem sempre conseguem captar adequadamente. Ciro, de acordo com as pesquisas qualitativas da Cenário Inteligência, era reconhecido como alguém capaz de enfrentar o problema da segurança pública. Entretanto, durante a campanha, parte dos eleitores passou a considerá-lo “não confiável”, sobretudo em razão da percepção sobre seu temperamento e comportamento político.

No caso de João Campos, apesar da popularidade digital e da avaliação positiva de sua gestão no Recife, parte dos eleitores afirmava que ele “não tinha cara de governador”. Também aparecia a percepção de que havia excesso de marketing em torno de sua imagem e de suas realizações. Esses sentimentos já indicavam os obstáculos que Ciro e João enfrentariam. Não adoto determinismos eleitorais. Eleições são processos abertos, sujeitos a acontecimentos imprevistos e mudanças de comportamento. Mas há uma lição que merece ser enfatizada: eleição não é apenas número. Eleição é também sentimento. Há ainda outro elemento fundamental. Tanto Raquel Lyra quanto Elmano de Freitas conseguiram chegar à eleição com avaliações de governo suficientemente positivas para preservar elevada competitividade. Isso lhes deu condições políticas para transformar o sentimento de continuidade em voto.

Por Adriano Oliveira – Cientista político, professor da UFPE e colunista do O Povo

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publicado 06/10/2026 - 12h03